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OS ARINOS E OS TRÊS AFONSOS

Villas-Bôas Corrêa

É fácil imaginar as facilidades de um privilegiado de nascença, com berço na biblioteca paterna onde as estantes, assentadas no piso do amplo gabinete da rua Dona Mariana, galgavam o teto nas grimpas do mezanino, alcançáveis por escadas de dezenas de degraus; e que cresceu, casou, correu o mundo como diplomata, aposentado como embaixador; deputado estadual na curta transição do estado da Guanabara; deputado federal em Brasília, convivendo com as mais altas personalidades do Brasil, Europa, Estados Unidos e América do Sul – para, no amadurecimento da casa dos 70 anos, reunir histórias, casos e episódios para contar no desfile das lembranças de uma memória fantástica.

E talvez não seja difícil imaginar as dificuldades para abrir a picada particular, atravessando a sombra do buriti perdido do tio-avô Afonso Arinos (o primeiro dos três homônimos e o mais perfeito e irretocável texto da família), e continuar a caminhada por trilha paralela como filho de Afonso Arinos de Melo Franco, a mais alta expressão cultural do século XX, dono de uma organização mental que parecia um infinito arquivo, catalogando no lugar certo e para sempre as informações ampliadas a cada dia, que se encaixam na fresta exata, com ramificações diretas às análises da poderosa inteligência – e que dava a impressão de saber tudo sobre arte, cultura, literatura e história, o passado, o presente e a antevisão do futuro.

Afonso Arinos, filho não buscou saídas espertas. Com a mais generosa simplicidade, cuidou de polir o brilho da família mineira de mais ilustres representantes desde as raízes em Paracatu, e fez o dever de casa para realizar a sua vocação de escritor. Desde o falecimento do pai, que morreu de médico em 27 de agosto de 1990, o filho acadêmico tem sido incansável em dedicação e competência, na tarefa sobre-humana de organizar, ordenar e selecionar o legado do caótico arquivo que enche gavetas, estantes, pastas, prateleiras, nas casas do Rio e de Petrópolis.

É quase inacreditável que alguém com a multiplicidade de interesses e atuações – como ministro, líder político, professor, representante do Brasil em congressos internacionais e autor de dezenas de livros, quase todos obras clássicas eternas – tenha conseguido tempo para encher milhares de páginas, à máquina ou manuscritas, de pareceres, estudos, projetos, artigos, conferências, que já foram preservadas das traças em volumes editados com cuidados de filho.

Mas o escritor de raça inventou vagares para também cuidar das suas obrigações. É dos mais assíduos acadêmicos às duas sessões semanais e colaborador requisitado para os trabalhos de pesquisa na imensa e valiosa biblioteca da Academia Brasileira de Letras. Cuidou da recente reedição de Pelo Sertão, do tio-avô Afonso Arinos, assinando o prefácio de admirável crítica literária do pioneiro da vertente regionalista a que se filiou Guimarães Rosa.

Amigo de muitos anos da família, conheci Afonsinho, sete anos menos velho do que eu, nas muitas visitas às casas dos pais, nos gabinetes de líder da Oposição e da UDN do deputado Afonso Arinos, nas conversas no plenário, nos corredores do Palácio Tiradentes. Justifico-me: a onda de emoção, em vagas mansas ou no troar das ressacas, pontua a leitura das 377 páginas deste Mirante de um escritor plenamente realizado, senhor da arte da narrativa, o qual, com a memória que herdou do pai, revive um tempo que a modernidade destruiu, enquanto desfila a procissão de amigos, em flagrantes de evocativa precisão psicológica.

E que grande vida! Quem não viveu nesse tempo, aproveite para curtir a saudade das memórias que regam esta obra-prima. O saudosismo confesso desafia comparação. Do Rio de Janeiro de antes do esvaziamento da mudança da capital. E do recheio humano que iluminou a época dourada da cidade que a burrice, a insensibilidade e a incompetência de quatro décadas de ditadura e de frustrante democracia arruinaram: Otto Lara Resende, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino; Pedro Nava, Prudente de Morais Neto, Pedro Dantas; Antônio Maria, Tom Jobim, Di Cavalcanti, Vinícius de Morais, “sempre em lua-de-mel”; Carlos Castello Branco, Odilo Costa, filho; Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Nélson Rodrigues, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado; Heráclio Sales, San Tiago Dantas, Carlos Lacerda, Raimundo Faoro, Barbosa Lima Sobrinho... entre outros nomes catados na rolança da leitura.

Não é para me gabar, mas eu vivi esse tempo.

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