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O INVENTÁRIO CRÍTICO

Luiz Gonzaga Marchezan*

O lugar do outro é um livro póstumo de José Paulo Paes, decidido durante sua vida e de forma incisiva. José Paulo sempre exercitou o ensaio, na discussão livre, breve e clara do gênero, aqui manifestado em 38 estudos distribuídos em três seções: Outridades, Circunstancialidades e Helenidades.

O primeiro ensaio nomeia esta obra e define outridades a partir de considerações sobre o romance sustentadas por E. M. Forster e Edwin Muir, em Aspects of the novel e The structure of the novel, respectivamente. O tecido romancesco, para Paes, leitor de Forster e Muir, é densamente trabalhado no espaço, num certo compasso e no tempo, com duração e abrangência. No romance de ação, o compasso é mais durativo; no de caracteres, mais abrangente, e no dramático, o compasso tensiona a ação e os caracteres, visando transformações.

O fio fabular é expandido nos romances de ação e de caracteres; contido, todavia intenso, no romance dramático. Tais atitudes literárias ressaltam precisamente, para o ensaísta, as outridades, "a experiência da outridade", "a representação literária da outridade", pela "força" da "exemplaridade" das personagens, nas suas pulsões, compulsões e motivações.

Dezessete outros ensaios envolvem-se com outridades. Stevenson é analisado por meio de duas de suas narrativas, A ilha do tesouro e Sequestrado, como um autor que encena arquétipos do inconsciente humano, seus desejos mais recônditos, nos mundos adolescente e adulto, em que, num "tempo mítico da aventura", o "herói juvenil jamais pode ser vencido pelos vilões do mundo adulto".

Três das Histórias sobrenaturais  – "Eles", "Acasa dos pedidos" e "Jirinquixá fantasma" –  de Kipling, na tradução do escritor José  J. Veiga, são comentadas e destacadas como exemplares de sua "prosa elíptica", em que o "paranormal transcende, por definição, a esfera do normal ou natural". Kipling e Maupassant influenciam, segundo Paes, um autor brasileiro de sua predileção, Monteiro Lobato, cuja outridade está no embate de suas paixões literárias e empresariais.

Lygia Fagundes Telles, com A noite escura e mais eu, é destacada pela maneira como trabalha seus contos de forma emblemática, simbólica, figurativa. Rubem Fonseca é comentado pelo livro de contos Romance negro e outras histórias, em que manifesta sua habilidade com os procedimentos da paródia, do exagero, e do desenlace melodramático. José Paulo analisa também o segundo romance do sergipano Francisco J. Dantas, Os Desvalidos, fábula de antigesta, segundo o ensaísta, que narra a degradação de um modelo econômico, o do engenho de açúcar.

A análise realizada em Boca de chafariz, romance de Rui Mourão, revela-nos saborosas outridades: personagens históricas da Ouro Preto da Inconfidência atuam noutra situação histórica, de 1979, ano em que a cidade foi castigada por uma enchente. Nessa versão, as personagens de Mourão assumem a "persona de seus personagens históricos para, conhecendo-os interiormente, figurar-lhes a essencial humanidade".

A outridade, segundo Paes, invade também autorias. Assim, comenta a ficção de autores criados "dentro de duas línguas-culturas diversas", no caso, Per Johns e Moacyr Scliar. O primeiro, com o romance Cemitérios marinhos às vezes são festivos [também da Topbooks],em que dramatiza a vida do seu protagonista "entre o rigor luterano do mundo nórdico e a complacência católico-feitichista do trópico brasileiro". O segundo, A majestade do Xingu, em que Scliar constrói uma paródia que tem como personagem o índio e nela o "humor judaico" forja satiricamente uma teoria do ecomarxismo, com todas as vantagens de uma "passagem direta do comunismo primitivo para o científico".

Tratado da altura das estrelas, de Sinval Medina, é outra paródia que envolve a análise de Paulo Paes. Nela, João Carvalho, piloto da nau capitânea de Fernão de Magalhães, e seu filho mameluco, Carvalhinho, viajam em torn do globo, com passagem pelo Rio de Janeiro. Nas demais discussões para a prosa em Outridades, hiper-realismo, realismo e mito dão o tom. Dessa maneira, José Paulo analisa Benjamim, de Chico Buarque, em que a lógica da narrativa obedece às exigências do comportamento errático do protagonista.

Em Mulher fatal, livro de contos de Jorge Miguel Marinho, o ensaísta comenta a forma como o histórico orienta as fábulas, uma vez que as personagens de ficção são determinadas pelas reais: Edith Piaf, Carmem Miranda, Marilyn Monroe, Elis Regina, Fernando Pessoa, Helena de Troia, Dalila, Cleópatra e Josephine Baker. O ensaísta recupera, descrevendo Contos de cidadezinha, de Ruth Guimarães, encenados no Vale do Paraíba, "o ethos da vida da cidade pequena", na esteira de Valdomiro Silveira, Monteiro Lobato e Ribeiro Couto.

Os mitos exemplares de A guerra dos pinguelos, da antropóloga Betty Mindlin, em 67 contos eróticos indígenas entre os povos Macurap, Tupari, Jabuti, Aruá, Arikapu e Ajuru, de Rondônia, para Paes, espelham a universalidade de uma imaginação mitopoética. A poesia aparece nos comentários que Paulo Paes faz de A lua investirá com seus chifres, de Ruy Proença; Sistema de erros, de Fábio Weintraub; Ocidentais e O súbito cenário, de Roberval Pereyr, poesias que, segundo o ensaísta, dão continuidade as de 1922. O fluxo surrealista na primeira obra, a visualidade na segunda e o epigramático na última, de acordo com Paes, testemunham os bons momentos que inspiram a poesia nacional.

Para o ensaísta, lirismo e reflexão pautam a visão irônica do mundo de Rubens Rodrigues Torres Filho, em Novolume, uma reunião de 34 anos de atividade poética. A outridade apodera-se também dos críticos, principalmente dos idiossincráticos, como no caso de Wilson Martins, com Pontos de vista, volume 12. Avesso ao marxismo, sempre propenso à crítica jornalística e não a universitária, Paes ressalta em Martins seus insights, dos quais decorre uma crítica apaixonada.

As Circunstancialidades não tiram do crítico o seu propósito ensaístico. No primeiro texto dessa seção, José Paulo expõe, de forma lírica, suas re1ações afetivas com a cidade de São Paulo, em quase meio século de convivência, somente interrompida por quatro anos durante seus estudos de química industrial. Nesse período, década de 40, em Curitiba, é que conhece Dalton Trevisan, em meio a circunstancialidades reveladas no segundo texto da seção. Os demais textos combatem a mediocridade do imaginário da classe média, perpassado pelo tarô e por mapas astrológicos; da mídia, no uso inadequado da figura de Carlitos para veiculação de uma propaganda de aplicação financeira, e, até, no anúncio do computador como saída para a administração da vida contemporânea.

Nesse mundo em que a vida parece estar na rede de comunicação entre computadores e nas mãos de Bill Gates, a língua inglesa, segundo o crítico, transformou-se numa língua de marketing, e o poder imperativo da linguagem jurídica transformou-nos em réus. Contra essa anodinia, Paulo Paes recomenda, finalizando a seção das Circunstancialidades, um antídoto: Por que ler os clássicos?, de Italo Calvino.

Helenidades, com dois ensaios, dá fecho à obra com a literatura grega. No primeiro texto, José Paulo comenta sua tradução do grego para o português, do poema Escrita gama, de Mando Aravandinou, poetisa neo-helênica, que o ensaísta conheceu em Atenas, em 1971. Escrita gama tem como tema a violência ocorrida na Grécia quando, em 1965, Constantino I1 pôs fim à democracia e abriu caminho para a ditadura militar. No poema, que se encontra transcrito no estudo, a violência apresenta-se transfigurada por um jogo metafórico, que recupera a memória num verdadeiro “inventário cívico”, conforme o tradutor. Simone Weil é o motivo do último ensaio e, nele, a saborosa noção de epopeia da escritora, que lê a Ilíada tanto voltada para o passado grego como para as pulsões do presente da história humana.

*Luiz Gonzaga Marchezan éprofessor do Departamento de Literatura da FCL-UNESP


LUSO-BRAZILIAN REVIEW
Edição nº 39
21/12/2002

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