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PONTO DE VISTA

Esquerda identitária e atraso social, político e econômico

Joaci Góes *

Ao inteligente, culto e erudito pensador Antônio Risério!

 

O antropólogo e pensador baiano Antônio Risério publicou, pela Editora Topbooks, um pequeno-grande livro intitulado “Sobre o Relativismo Pós-Moderno e a Fantasia Fascista da Esquerda Identitária”, cuja leitura me parece obrigatória para quem queira compreender, em profundidade, o pantanoso ambiente ideológico em que, no momento, o Brasil chafurda. Segundo Risério, que se coloca no campo da esquerda democrática, os identitários são intelectual e esteticamente medíocres. Sua ação política prejudica o florescimento da cultura e da liberdade de pensamento, de matriz iluminista. O leitor constata, ao fim da leitura do livro, que Antônio Risério entregou o que prometeu: uma radiografia completa da “cracolândia mental do identitarismo”.                              

O identitarismo resulta de uma grosseira adaptação do marxismo às diferentes posições das pessoas na sociedade, diante do rotundo fracasso do comunismo, com o propósito de obter o apoio delas para chegar ao poder. A relação que interessa, portanto, deixou de ser entre burgueses e proletários para ser sociocultural, em que o fim é a busca da simpatia das pessoas insatisfeitas com os atributos que possuem.

Tamanha é a fragmentação a que se submete o status social das pessoas que se pode chegar ao extremo de, como exemplo, uma mulher negra, gorda, canhota, bissexual, solteira, grávida, desempregada e analfabeta ser alvo de abordagens correspondentes a cada uma dessas dimensões de sua personalidade. Ao invés de lidarmos com personalidades fundas, como é o natural da complexidade humana, a esquerda identitária as reduz a personalidades rasas, unidimensionais, segundo a classificação de Edward Morgan Forster (1879-1970) no clássico “Aspects of the Novel”. 

Um dos efeitos mais negativos da ação política identitária é o recrudescimento, entre nós, do fascismo de esquerda, sobretudo no meio universitário. Os opositores dessa barbárie silenciam por medo de linchamento físico-verbal, em face do reiterado recurso ao chicote e à rédea curta vigorantes nos campi universitários para extinguir dissidências. Quem se opuser é atacado como homofóbico, racista, misógino, canalha. Como exemplo de atrocidades praticadas na Bahia, o conhecido geógrafo e analista político Demétrio Magnoli e o filósofo Luís Pondé foram impedidos de falar e expulsos de uma feira de livros em Cachoeira de São Félix, em 2013. Dentre outras ofensas impublicáveis, jogaram no palco uma cabeça de porco ensanguentada, conforme testemunho do escritor Victor Mascarenhas. Foi um ato brutal de censura prévia, muito no espírito obscurantista que, desde então, se adonou da UFBA.

 Com a blogueira cubana Yoani Sánchez aconteceu algo semelhante. Ela foi humilhada e silenciada, para compreender que no meio universitário brasileiro os irmãos Castro são gurus. Muito recentemente, em junho de 2019, uma milícia da esquerda identitária invadiu a escola de teatro da UFBA (Universidade Federal da Bahia) para impedir a encenação da peça “Sob as Tetas da Loba”, de Jorge Andrade, dirigida pelo professor Paulo Cunha. Espumando de raiva, tomaram o Teatro Martim Gonçalves e agrediram a professora Deolinda França de Vilhena, chamando-a de “racista” e “branca da França”, por viver ela com uma francesa, numa atitude ostensivamente homofóbica. Segundo Deolinda, a UFBA e a ETUFBA quase pediram desculpas aos agressores. A filósofa Bruna Frascolla estranhou o silêncio conivente da UFBA, tão sensível e operosa na defesa dos salteadores do Erário.

Já em meados dos anos noventa, Luiz Mott teve os muros de sua casa pichados e as vidraças quebradas por haver especulado sobre a homossexualidade de Zumbi dos Palmares. Silêncio total e continuado de nossa universidade pública sobre tantos atos fascistas praticados por essa esquerda identitária em seus campi. Os professores que são contrários a essas práticas, em reflexo condicionado, silenciam por medo das retaliações.

Em sua plenitude operacional, o fascismo obscurantista dominante tem fomentado o apartheid político, ideológico e cultural, abortando o universalismo próprio do espírito acadêmico e proscrevendo a divergência, apanágio elementar do ambiente minimamente universitário, estando nossa UFBA na vanguarda do atraso, incapaz, sequer, de promover estudos destinados a superar problemas crônicos que respondem pela decadência de nosso Estado em múltiplas dimensões. 

*Joaci Goes é advogado, ex-deputado federal constituinte, relator do Código de Defesa do Consumidor, empresário, articulista, conferencista e atual presidente da Academia de Letras da Bahia, além de autor de vários livros.

 

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