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BRIGGFLATTS.BASIL BUNTING

O que impressionava Allen Ginsberg era o Briggflatts ser, em essência, um poema sobre o amor perdido. Ele estava na sua mão, ele estava perto. Você podia estender o braço e tocar a mão dela, você podia pegar a bicicleta e chamar no portão, podia escrever cartas e no outro dia perguntar se ela também. Como isso pode se perder? Com que garras um sentimento desses te dilacera?

Realmente, o que há de bonito no poema é isso mesmo, mas, como tudo no reino encantado da poesia, não se pode esquecer que pra lidar com a carne crua do coração você precisa de um equipamento especializado, capaz de, com 34 teclas, desvelar uma linda paisagem onde o som ambiente (calandras piando, pedreiros batendo o malho, serpentes rastejando) na verdade é uma sinfonia. Se o alto modernismo gringo se caracterizou por um questionamento existencial profundo quanto à capacidade de se escrever poemas longos, ler um livro como esse do Bunting mostra de maneira muito clara que os melhores resultados de gente como T. S. Eliot, Ezra Pound ou Wallace Stevens havia sido incorporado com sucesso, e os cabelos brancos não foram em vão.

O trabalho de Felipe Fortuna é louvável, assim como o trabalho da Topbooks (essa capa mesmo eu acho lindona). A introdução é uma coisa utilíssima, capaz de te dar os materiais necessários para se encantar com o poema e compreendê-lo, sem que, para tanto, o leitor fique coçando a cabeça tentando entender o que exatamente um número tão grande de proparoxítonas faz ao lado de palavras que mais parecem faltar um pedaço. Exemplifico:

“Uma força-motriz do poema é certamente o arrependimento ou o remorso, que faz o poeta regressar, cinquenta anos depois do encontro amoroso, ao mesmo local de onde saíra. "Briggflatts" é um poema intenso sobre o amor ― sobre o amor perdido, mais precisamente ― que trata, pelo viés autobiográfico, da busca da identidade, da inquietação a atormentar o poeta por onde esteja e, enfim, do sentimento de pertencer a um lugar que funde a história, a paisagem e a dimensão pessoal. Poema de uma busca persistente e sofrida, que o poeta condensa em 717 versos”.


Fico feliz e me contento com uma passagem dessas. Exibe segurança ("é certamente", "mais precisamente"), focos de energia ("funde a história, a paisagem e a dimensão pessoal") e é sensível o bastante para pressupor que nós, leitores, podemos muito bem imaginar o que é voltar, depois de cinquenta anos, para o ponto exato da juventude onde as coisas pareciam eternamente ter dado certo, daí advindo, portanto, esse "que o poeta condensa" no texto de Felipe Fortuna. Quer dizer: um sentimento assim é vasto demais, e quando se fala da precisão de Bunting, ou mesmo de sua concisão, não se está dizendo de uma maneira de descrever de modo lacônico e nem um pouco sentimental a imagem de uma aranha tecendo sua teia (pelo contrário, encontraremos: "onde as próprias sombras são uma teia"). A condensação aqui é emocional, daquele tipo de emoção que durante meio século você guarda dentro de si até praticamente se desarmar todo diante do turbilhão da memória: "Estrelas se dispersam. Nós também".

De todos os perigos que traduzir um poema apresenta, o Briggflatts apresenta todos. Dois, no entanto, são dignos de nota: a precisão com que Bunting emprega os vocábulos, com uma minúcia que não aceita qualquer desvio de foco que seja, e, como dito, a sonoridade vertiginosa. Do final da primeira (primeira!) estrofe, pra se ter uma ideia, temos:


May on the bull's hide
and through the dale
furrows fill with may,
paving the slowworm's way.


Termos como may, um tipo específico de flor, e slowworm, são essenciais para o poema. Todavia, não se traduz simplesmente uma passagem dessas sem que se compute todas as ramificações sonoras que os fonemas de cada palavra serão capazes de oferecer, e que, por exemplo, na passagem citada, envolveriam um modo de ir de encontro às aliterações nos dois últimos versos ("furrows fill" e "slowworm's way"). Felipe Fortuna, com felicidade, chega a:


Flores alvas no couro do touro
e por todo o vale
flores alvas ladrilham as valas,
por onde a cobra-de-vidro resvala.

Rima interna ("couro do touro"), paranomásias perfeitas ("alvas" e "valas"), aliterações (L e V) e duas assonâncias (O e A) dando relevo à delicada imagem da flor branca pousando no touro, imagem que aqui adquire caráter simbólico, remetendo "à delicadeza da flor e à dureza do couro" (o vigor em estado bruto do touro suavemente tocado pela flor). Todavia, é também de se observar a maneira com que o poeta depois amplia a imagem para todo o vale, povoando de inúmeros pontos brancos nosso olhar sem que, portanto, deixemos de perceber e sentir o caminho da cobra-de-vidro.

Não dá pra querer citar o número de versos com detalhes imagéticos e sonoros impressionantes. Veja bem: repito: quando se diz que o poema possui uma condensação enorme, isso não se dá nem tanto pelo fato de que o arrependimento de um amor perdido é a força motriz de um poema que possui um contexto cultural mais amplo (vide a referência a Anuerino na parte IV). Trata-se também de mostrar como o poeta derrama meio litro de poesia refinada em todo grupinho de versos, sem que uma só área fique desenergizada. E em cada setor, um encanto:


Faixas púrpuras e verdes lampejam dos muros,
flâmulas rubras, laranja manchada pálida sobre azul,
reflexos de antigas armas
que zelam e protegem a humanidade.


"laranja manchada pálida sobre azul" é de uma precisão cromática que me deixa até sem comentários. O mesmo quanto a uma simples passagem como:


Leve como o fio da teia seu cabelo na minha face com um sopro se espalha,
leve como uma mariposa seus dedos na minha coxa.


Que não só apresenta todas as palavras no lugar, como as coloca a serviço de uma mensagem que traduz a sensualidade do momento à sensação de que aquilo ali foi embora para sempre. É um toque que te encanta? Sim, é um toque que me encanta: "uma mariposa seus dedos na minha coxa". Mas o que é que aconteceu, hum? Me diga, o que é que aconteceu? "como um sopro se espalha". É maravilhoso que um poema desse nível de realização circule em nosso país!

 

Publicado em

http://formasfixas.blogspot.com.br/2016/12/os-melhores-de-2016.html

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