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POESIA.NET

Carlos Machado

Amigas e amigos,

Não há dúvida de que todo poeta, de alguma forma, é também um crítico, tácito ou explícito, de poesia. Afinal, ao escrever, ele faz escolhas — e desde aí, em certa medida, já está cumprindo o papel de crítico. Mas o caso do poeta, crítico, ensaísta, professor e acadêmico Antonio Carlos Secchin (Rio de Janeiro, 1952) é diferente.

Crítico brilhante, Secchin conquistou largo respeito com o livro João Cabral: A Poesia do Menos (1985), que ganhou prêmios e tornou-se leitura obrigatória para quem deseje estudar a sério a poesia cabralina. A Poesia do Menos foi, depois, em 2014, revista e ampliada com novos ensaios sobre a obra do poeta pernambucano, sob o título João Cabral: Uma Faca Só Lâmina.

Para o ensaísta, no entanto, melhor que os prêmios foi a declaração do próprio João Cabral de Melo Neto, dada numa entrevista em 1991: “Entre todos os professores, pesquisadores e críticos que já se debruçaram sobre minha obra, destaco Antonio Carlos Secchin. Foi quem melhor analisou os desdobramentos daquilo que pude realizar como poeta”.

À parte os estudos sobre João Cabral, Secchin publicou um bom punhado de livros de ensaios. Em seu trabalho mais recente nessa área, Memórias de um Leitor de Poesia (2010), ele reúne ensaios sobre prosadores e poetas brasileiros, desde Tomás Antônio Gonzaga até Chico Buarque, passando por Machado de Assis, José de Alencar, Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes.

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E o Secchin poeta? Este já esteve aqui no boletim n. 89, de 2004, após o lançamento de Todos os Ventos, reunião de poemas de toda a sua trajetória até então, varrendo o período de 1973 a 2002. Antonio Carlos Secchin retorna ao poesia.net em razão do livro Desdizer e Antes (2017), nova reunião poética, agora incluindo poemas de safra mais atual, escritos entre 2003 e 2017.

De Desdizer extraí quatro novos poemas, que vão transcritos ao lado. O primeiro deles, "Na Antessala", é também o que abre o volume. Nos quatro quartetos desse poema, Secchin tece uma rede de autoironia. Avisa ao leitor que, no livro, não vai encontrar nada ao nível de Pessoa, Drummond ou Cecília Meireles. “O máximo, que mal consigo, / é chegar a Antonio Secchin”, conclui o poeta, em aberta zombaria.

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Os novos textos de Secchin não escondem o tom hilariante. Em “Poema Promíscuo”, o poeta organiza uma paródia da letra de “Disseram Que Eu Voltei Americanizada”, canção de Vicente Paiva gravada originalmente por Carmen Miranda. Mas aqui o contexto é o da poesia. Como em Desdizer boa parte dos versos tem métrica e rima, o texto começa com o aviso: “Disseram que voltei muito mecanizado, / com ritmo correto, muita rima rica, / que não tolero nada que não seja aquilo / que seja exatamente o que Bilac dita”.

A “promiscuidade” do poema é explícita. “Nada que não seja aquilo que seja.” E segue, alegremente, até concluir, com mais galhofa, que enquanto muitos insistem nos vetos estéticos, o que se acha impossível acontece de modo trivial: “passa um poema concreto ao lado de um soneto”. Como cantava Carmen Miranda: “Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno?”.

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No “Soneto da Boa Vizinhança”, o tom é semelhante. Aqui, parece uma conversa cotidiana entre cariocas moradores de um mesmo prédio. O papo envolve chacotas machistas, falar mal dos vizinhos, futebol, violência nas ruas. Tudo, como no Brasil atual, aparentemente sem pé nem cabeça. Aliás, este poema, assim como o anterior, encontra-se numa parte de Desdizer chamada “Dez sonetos desconcertados”.

Vem, por último, outro exemplar do desconcerto, o “Quase Soneto Aposentado”. Trata-se de um poema daqueles em que o autor comenta o que está fazendo enquanto constrói o texto. Mais uma vez, o clima é de sarcasmo. O poeta relata que, já faz 30 anos, tenta escrever uma obra-prima, que é este soneto. Contudo, apesar do “tempo de depuração”, algo não dá certo nesta obra magistral.

O que acontece? O próprio soneto, já cansado (30 anos de tentativas!), não quer mais seguir em frente, e pede aposentadoria. Aproveitando a falta de uma rima para “lâmpada”, o poema se apaga e deixa o soneto no “quase”, com apenas treze versos. Confesso que ri sozinho ao considerar as peripécias desse texto.

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Num artigo incluído em Desdizer à guisa de posfácio, Antonio Carlos Secchin diz ter escrito, num poema antigo, a expressão “operário do precário” e que a recupera agora como uma definição do ofício do poeta: “um operário da linguagem, um experimentador de formas, cuja eficácia é posta à prova a cada verso ou estrofe que acaba de erguer”. Como se vê, é — mais uma vez — o crítico de mãos dadas com o poeta.

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Antonio Carlos Secchin (Rio de Janeiro, 1952) é poeta, ensaísta e crítico literário. Doutor em letras, é professor titular da UFRJ desde 1993. Em 2004 tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras.

Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado

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Publicado no número 401 (ano 16) de poesia.net, junho de 2018.

 

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